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O sacerdócio da Nova e Eterna Aliança


Neste primeiro final de semana do mês de agosto, mês que a Igreja dedica às diversas vocações, celebramos o dom do sacerdócio.



A palavra presbítero, empregada já na Igreja Primitiva, vinha do grego com o significado de ancião ou sacerdote. Todavia, recebeu um conteúdo novo, do sacerdócio da Nova Aliança, pois novo era o cristianismo.



Na abertura do Sínodo dos Bispos, em 1990, no Rio de Janeiro, o então Cardeal Joseph Ratzinger afirmou que:



O sacerdócio da Nova Aliança é inserção singular, única, na própria missão do Senhor. Uma relação absolutamente nova com o Senhor o constitui e o caracteriza”.


O que significa e como se manifestou na história da Igreja o sacerdócio? O próprio Jesus Cristo se revelou como o Enviado do Pai, do qual recebeu uma missão. No Senhor, manifesta-se a autoridade de Deus. No esvaziamento do Verbo que assumiu a natureza humana, Jesus e o Pai são UM.



Cristo veio para salvar, para reconciliar, para unir, e vai conferir sua missão a outros, ungindo-os com seu poder e a sua autoridade. Escolheu e convocou doze homens, para pô-los a serviço de todas as pessoas que viriam a existir até sua volta. Enviou-os: “Ide, pois, e ensinai a todas as nações; batizai-as em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo. Ensinai-as a observar tudo o que vos prescrevi.” (Mt 28, 19-20). “Como o Pai Me enviou Eu vos envio” (Jo 20,21); “quem recebe aquele que eu enviei recebe a mim” (Jo 13,20).



A ordem de pregar o Evangelho a todas as nações, até o fim dos tempos, foi definitiva. Precisaria continuar após a morte de Jesus e dos apóstolos. Jesus, no entanto, havia dito: “O Filho por Si mesmo nada pode fazer” (Jo 5,19.30) e também: “Sem Mim nada podeis fazer” (Jo 15,5).



Daí começa-se a entender o ministério dos apóstolos. Eles compartilham com o Senhor esse “nada pode”. Conforme Ratzinger explicita:



“Por si mesmos, pelas forças da própria inteligência, da própria vontade, eles são incapazes de fazer aquilo que devem fazer como Apóstolos. Como poderiam eles dizer: ‘Eu te perdoo os teus pecados’? Como poderiam dizer: ‘Isto é o meu corpo’? Como poderiam eles impor as mãos e dizer: ‘Recebe o Espírito Santo’? Nada daquilo que constitui a ação dos Apóstolos é o resultado de suas próprias forças. Mas é justamente esse nada de seu que constitui sua comunhão com Jesus (...) O nada de próprio de cada um os insere na comunhão de missão com o Cristo.”



A Igreja, então, fez o que recebeu do Senhor, e o faz até hoje: ordena os sacerdotes, para serem totalmente de Deus, numa doação tal que os capacita a transmitirem o que não provém deles próprios. São mensageiros do Senhor, pelo sacramento que recebem. E aqui encontrarão a sua realização. Aqui deve acontecer plenamente aquilo que disse o Senhor: “o que perder a sua vida por amor de mim e do Evangelho, ganhá-la-á.” (Mc 8, 35).



Paulo traduzia essa realidade do sacerdócio caracterizando os apóstolos: “Somos embaixadores em nome de Cristo e é Deus mesmo que vos exorta por nosso intermédio” (2Cor 5,20).



De fato, o ministro já não fala e age em seu próprio nome. Ele é o ministro da reconciliação. Para isso foi ungido, quando o bispo lhe impôs as mãos. É através dele que o Senhor cancela o abismo da separação e restabelece a comunhão, através dele a Palavra é proclamada, o perdão é concedido, e a Eucaristia se torna o alimento do povo de Deus. Por isso, segundo Paulo, devemos considerar os apóstolos “como servidores de Cristo e administradores dos mistérios de Deus” (1Cor 4,1).



Tudo isso nos vem da era apostólica. Antes mesmo de Pentecostes, os apóstolos já haviam ordenado Matias para suceder a Judas Iscariotes. Quando o Espírito Santo desceu sobre eles, compreenderam definitivamente a missão recebida. Então exerceram esse ministério e o conferiram a outros. A Igreja recebeu “aquilo que tinham recebido” do próprio Senhor. O Depósito da Fé estava nela, e a evangelização era a missão a ser cumprida até o fim dos tempos.



Vemos Timóteo sendo exortado por Paulo a reavivar o dom recebido pela “imposição das mãos” (2Tm 1,6).



Na Carta a Tito, Paulo afirma: “Eu te deixei em Creta para acabares de organizar tudo e, ao mesmo tempo, para que constituas presbíteros em cada cidade, de acordo com as normas que tracei” (Tt 1,5). Paulo determina que os presbíteros constituídos por ele constituam outros. Fala também aos presbíteros (anciãos) de Éfeso, quando os anima a serem solícitos por “todo o rebanho”: o rebanho “sobre o qual o Espírito Santo vos constituiu bispos, para apascentardes a Igreja de Deus, a qual Ele adquiriu com seu próprio sangue” (At 20,28).



O princípio da sucessão apostólica nasceu com essa identificação. A condição de Apóstolo, de ser um dos Doze, era única, das testemunhas que conviveram com o Senhor, mas o ministério é transmitido e se perpetua nos sucessores, que “perseveram na doutrina dos Apóstolos”, fiéis à Tradição.



Tanto que Pedro afirma a sucessão: “Aos presbíteros que estão entre vós, exorto eu, seu co-presbítero e testemunha dos sofrimentos de Cristo, participante da glória que há de ser revelada. Velai sobre o rebanho de Deus, que vos é confiado.” (1 Pd 5,1). Pedro se autodenomina “co-presbítero”, vinculando o sacerdócio (do presbítero e do bispo) ao Senhor, o Bom Pastor, mandando-os apascentarem as ovelhas.



Clemente de Roma, o terceiro papa, atesta, no fim do séc. I, que “os Apóstolos receberam a Boa Nova da parte do Senhor Jesus Cristo” e, “munidos de instruções (...), confiados na Palavra de Deus, saíram a evangelizar (...). Proclamando a Palavra no interior e nas cidades, estabeleciam suas primícias como Bispos e Diáconos dos futuros fiéis (...). Como tivessem perfeito conhecimento do porvir, estabeleceram (bispos) e deram, além disso, instruções no sentido de que após a morte deles, outros homens comprovados lhes sucedessem em seu ministério” (Carta de Clemente Romano à Igreja de Corinto, tradução direta do grego por Paulo Evaristo Arns, Rio de Janeiro: Vozes, 1971).



Firmada a origem do sacerdócio na Igreja Primitiva, remontando ao próprio Cristo, o Papa emérito sintetiza a identidade do sacerdote. Resumidamente, podemos dizer que o sacerdote deve ser um homem que conhece Jesus a partir de dentro, que se encontrou com Ele e aprendeu a amá-lo; antes de tudo, um homem de oração, para ser capaz de perseverar em seu ministério. Deve aprender com o Senhor que o importante em sua vida não é sua autorrealização, o sucesso. Deve aprender a não criar uma comunidade de admiradores e seguidores para si, mas a trabalhar para o Senhor, centro único de toda a pastoral. Quem trabalha para o Senhor sabe que é sempre um outro que semeia e um outro que colhe. Qualquer que seja o resultado, entrega ao Senhor e faz a sua parte livre e jubiloso, porque sua vida está integrada numa causa imensa. Da íntima comunhão com o Senhor brota a participação no amor pelos homens e no desejo de salvá-los e ajudá-los. Quem conhece o Senhor de primeira mão, descobre a força renovadora que confere sentido a todas as coisas e torna grandioso até o que é difícil. Somente uma alegria como esta, por causa do Senhor, é capaz de irrigar de alegria o ministério e torná-lo vivificante. E, como o Senhor jamais se acha só, mas veio para unir a todos em seu corpo, acrescenta-se mais um componente da identidade do sacerdote: o amor à Igreja. Somente na verdadeira Igreja é que encontramos o Cristo verdadeiro. Na prontidão em amar a Igreja, em viver com ela e servir ao Senhor dentro dela, é que se revelam a profundidade e a seriedade da relação do sacerdote com o próprio Cristo

(RATZINGER, Joseph. Compreender a Igreja hoje. Rio de Janeiro: Vozes, 1992, p. 72).



Assim deve ser o homem que serve em nossas paróquias, ali colocado pelo sucessor dos apóstolos. Por graça de Deus, podemos afirmar quanto a Paróquia São Martinho foi e é abençoada, pois temos os testemunhos do Padre Ladislau e do Padre Miguel, sacerdotes segundo o coração do Senhor!



Louvemos e bendigamos!

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